Ainda há esperança: O que a ciência mostra após falhas na FIV
Várias tentativas de FIV sem sucesso? O que fazer?
Essa é uma das dúvidas mais angustiantes dentro da reprodução humana. Muitas pacientes chegam ao consultório após tentativas frustradas, carregando não apenas resultados negativos, mas também ansiedade, insegurança e uma sensação de que algo está errado.
É comum, nesse momento, iniciar uma busca intensa por respostas, com a realização de diversos exames complementares, muitas vezes caros, invasivos e sem benefício comprovado. Isso pode tornar o caminho até a tão desejada gravidez, mais longo, mais difícil e emocionalmente desgastante.
Mas será que esse é realmente o melhor caminho?
O que é falha recorrente de implantação?
O termo técnico utilizado para múltiplos resultados negativos na fertilização in vitro é chamado de Falha Recorrente de Implantação (RIF em inglês).
Durante muitos anos, esse diagnóstico foi utilizado de forma ampla, sem critérios bem definidos. Isso levou a um aumento significativo de investigações e tratamentos que nem sempre tinham base científica sólida.
Hoje, com o avanço da medicina reprodutiva, sabemos que esse diagnóstico deve ser feito com muito mais critério.
O que a ciência mais recente mostra
Um dos maiores estudos já realizados sobre o tema, envolvendo mais de 123.000 tratamentos, trouxe uma nova perspectiva.
Nesse estudo, todas as pacientes realizaram transferência embrionária de um blastocisto euploide, ou seja, um embrião geneticamente saudável, considerado atualmente o melhor padrão de seleção embrionária disponível.
Mesmo nesse cenário ideal, nem todas engravidaram na primeira tentativa. E isso é fundamental de entender.
Quais são as reais chances de gravidez na FIV?
Os dados mostram que:
· A chance de gravidez por transferência de um embrião euploide é de aproximadamente 60%
· Entre as pacientes que não engravidam na primeira tentativa, muitas conseguem sucesso nas tentativas seguintes
· A taxa acumulada de gravidez pode ultrapassar 98% após múltiplas transferências
Ou seja: não engravidar na primeira tentativa está dentro do esperado.
Falha de implantação recorrente é comum?
Não.
Um dos achados mais importantes desse estudo é que a verdadeira falha de implantação recorrente, sem causa identificável, é muito rara, ocorrendo em menos de 2% das mulheres.
Isso muda completamente a forma de interpretar falhas consecutivas.
O papel do embrião: o ponto mais importante
O estudo analisou apenas embriões euploides, ou seja, geneticamente normais.
Isso é fundamental porque:
• a principal causa de falha de implantação é a alteração cromossômica (aneuploidia)
• quando eliminamos esse fator, conseguimos entender melhor o que realmente está acontecendo
E o resultado foi surpreendente.
Por que a gravidez não acontece mesmo com embriões normais?
Mesmo embriões considerados normais não são idênticos entre si.
Fatores que podem influenciar incluem:
· qualidade biológica do embrião
· tempo de desenvolvimento
· características ainda não totalmente compreendidas pela ciência
Por isso, cada embrião representa uma nova chance, e não uma repetição do mesmo resultado.
Preciso fazer mais exames após falhas na FIV?
Na maioria dos casos, não imediatamente.
Muitos exames frequentemente solicitados não possuem comprovação científica consistente, como:
· testes imunológicos complexos
· avaliações de células NK
· algumas abordagens personalizadas sem evidência
Esses exames podem:
· aumentar custos
· gerar ansiedade
· atrasar o tratamento
· não melhorar as chances de gravidez
O que fazer após várias tentativas sem sucesso?
A decisão deve ser individualizada, mas na maioria dos casos:
continuar o tratamento pode ser a melhor estratégia
Desde que:
· não exista uma causa identificável (como pólipos, miomas ou hidrossalpinge)
· o tratamento esteja sendo bem conduzido
Cada nova tentativa com um novo embrião representa uma nova oportunidade real de gravidez.
Uma mudança importante de perspectiva
Muitas pacientes (e até médicos) têm a sensação de que estão “fazendo a mesma coisa” repetidamente.
Mas isso não é verdade.
A cada nova tentativa:
o mais importante muda : o embrião
E isso faz toda a diferença no resultado.
Resumo rápido
· Nem toda falha de implantação significa um problema
· A maioria das pacientes engravida ao longo das tentativas
· Falha recorrente verdadeira é rara (<2%)
· Exames excessivos nem sempre ajudam
· Cada embrião é uma nova chance real
Perguntas frequentes (FAQ)
Quantas tentativas de FIV são normais?
Não existe um número fixo, mas múltiplas tentativas podem ser necessárias e ainda assim manter boas chances de sucesso.
Depois de falhas devo investigar tudo?
Nem sempre. A investigação deve ser direcionada e baseada em evidência.
Vale a pena tentar novamente?
Sim. As chances continuam altas em novas tentativas.
Próximo passo
Se você já passou por tentativas sem sucesso, é importante avaliar seu caso de forma individualizada, com base em evidência científica e sem excessos.
Existe um caminho, e ele pode ser mais simples e eficaz do que parece.
Autor: Dr. Edward Carrilho
Referências:
1. Ata B, Kalafat E, Somigliana E. A new definition of recurrent implantation failure on the basis of anticipated blastocyst aneuploidy rates across female age. Fertil Steril 2021;116:1320–1327.
2. Pirtea P, De Ziegler D, Tao X, Sun L, Zhan Y, Ayoubi JM, Seli E,Franasiak JM, Scott RT Jr. Rate of true recurrent implantation failure is low: results of three successive frozen euploid single embryo transfers. Fertil Steril 2021;115:45–53.
3. Gill P, Ata B, Arnanz A, Cimadomo D, Vaiarelli A, Fatemi HM, et al. Does recurrent implantation failure exist? Prevalence and outcomes of five consecutive euploid blastocyst transfers in 123 987 patients. Hum Reprod 2024;39:974–980.
Dr. Edward Carrilho
CRM/RP: 107689/SP | RQE: 43839 Ginecologia e Obstetrícia RQE:438391 Reprodução assistidaFormado pela UNIFESP-EPM, o Dr. Edward é especialista em Reprodução Humana e atua na FERTMED e em centros de referência em São Paulo. Com abordagem personalizada e estrutura completa, oferece tratamentos atualizados para infertilidade, incluindo atendimento presencial, remoto e intervenções cirúrgicas, além de formar novos especialistas no Instituto Sapientiae.
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